Quinto ano do projeto de reintrodução da águia pesqueira

2015 será o último ano de transferência de juvenis de águia pesqueira recolhidos na Suécia e na Finlândia para a albufeira da barragem de Alqueva, ao abrigo do acordo com a EDP que financia integralmente o projeto. A libertação desde 2011 de juvenis desta espécie em Alqueva foi considerada a melhor opção estratégica para a recuperação da espécie em Portugal, nomeadamente na costa rochosa portuguesa onde os últimos exemplares da população nidificante despareceram em 2003. De 2011 a 2014 foram recebidos 44 exemplares dos quais 82% dispersaram com êxito iniciando a migração para as áreas onde se mantêm até à idade reprodutora, que em regra se situam na África Ocidental, sobretudo nas zonas costeiras do Senegal, Gâmbia e Guiné Bissau.

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Ontem, chegaram a Lisboa mais 12 aves que foram já transferidas para as instalações do projeto na Herdade do Roncão na albufeira de Alqueva, onde completarão o desenvolvimento até à sua dispersão em setembro.

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Chegado o quinto ano do projeto, redobram as expetativas de se observarem os primeiros retornos de aves libertadas em anos anteriores e que sobreviveram até agora, em especial a duas perigosas travessias do deserto do Sahara. Uma primeira observação foi realizada em junho de 2014 quando foi observada e fotografada uma ave com anilhas do projeto a pescar em frente às instalações deste. Mais recentemente, em abril deste ano, foram observados e fotografados dois indivíduos anilhados, também do projeto, um a pescar junto ao paredão da barragem de Alqueva e outro voando sobre o paredão da barragem de Pedrógão. Não foi possível até agora confirmar se estas aves se encontram já instaladas em territórios de reprodução, na albufeira de Alqueva ou em outros locais, mas as prospeções irão continuar. Um aspeto positivo é que todas estas aves parecem ser machos, os percursores de novos territórios de reprodução.

Mas a extraordinária notícia de 2015 é a instalação, no outono do ano passado, de um casal na costa vicentina, atualmente com duas crias que, se sobreviverem, serão as primeiras a voar em Portugal desde 1996! Nenhum dos membros do casal se encontra anilhado mas a opinião dos especialistas em reintrodução da espécie e consultores do projeto, é que este facto se deve aos projetos de reintrodução na Península Ibérica, iniciados na Andaluzia em 2003, e posteriormente em Portugal em 2011 e País Basco em 2013. A presença de grande número de aves libertadas no conjunto destes projetos exerce uma poderosa atração sobre águias-pesqueiras de outras regiões. Por exemplo, encontram-se atualmente instaladas na Andaluzia aves provenientes das Baleares e Marrocos, do mesmo modo que uma fêmea libertada na Andaluzia se encontra instalada num território de reprodução no Parque Natural de Al Hoceima em Marrocos.

Os 20 casais já instalados na Andaluzia, juntamente com o casal da costa vicentina e as transferências cada vez mais dinâmicas de indivíduos entre subpopulações demonstram que os projetos de reintrodução funcionam e que estamos a caminho de recuperar a espécie na região mediterrânica de uma forma consertada. Condição básica é que o número de indivíduos libertados seja suficiente para compensar a mortalidade associada às migrações e aos anos passados nas áreas de dispersão pré-adulta. Como tal, quanto maior esse número maior a probabilidade de êxito.

Luís Palma, Coordenador Científico do Projeto
Investigador  no CIBIO-INBio- Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, Universidade do Porto

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