“Sobre a minha experiência do ano passado.”

Hoje trazemos um relato de uma voluntária que esteve na Herdade do Roncão no ano passado e que este ano está de volta… Leia tudo, na continuação.

 

Quando recebi e folheei o meu primeiro guia de aves, ainda uma infante que frequentava a primária, lembro-me perfeitamente de, chegando à parte das rapinas diurnas, pousar os meus olhos nas ilustrações da águia pesqueira, admirando-a. Esse mesmo guia classificava-a como “raramente observável” e “espécie em perigo”, algo que na altura me deixou apreensiva. A partir dessa data, assumi que provavelmente nunca veria uma águia pesqueira.
No entanto, mais de 10 anos depois, estava junto delas.
Durante a minha formação superior, em Medicina Veterinária, tentei perceber como é que, em Portugal, poderia participar em projetos ou atividades associadas à conservação de espécies selvagens. A primeira vez em que li algo sobre o projeto de reintrodução da águia pesqueira foi precisamente neste blog. Não sabendo se ainda se encontrava a decorrer, assisti a uma palestra que me confirmou que este não só se encontrava em decurso como aceitava voluntários. Candidatei-me e – rejubilo! – fui aceite.
Primeiro dia. Por uma estrada de terra batida imprópria para a maior parte dos veículos motorizados, entre terrenos com escassos sinais de presença humana, atravessámos vários portões – perdi-lhes a conta – e chegámos finalmente ao monte do Roncanito, à minha casa durante as próximas duas semanas.
Foi neste cantinho do Alqueva que pela primeira vez pesquei – era muito importante pescar, para que se alimentassem as águias pesqueiras com peixe fresco e de espécies semelhantes às que elas próprias poderiam pescar, mais tarde.
Aprendi qual é a satisfação de conseguir apanhar peixe, mas passei também a compreender demasiado bem a frustração associada a não os apanhar. O passar dos minutos, às vezes horas, sem que nenhum peixe se interessasse pelo isco ditaria a sentença: uma ida à jaula. Com efeito, quando não se obtia peixe suficiente na pesca à cana e à rede recorria-se a esta jaula, que tinha peixes vivos, pescados em dias de maior bonança. Passei a acreditar na sorte de principiante quando, na minha primeira ida à jaula – óculos colocados, camaroeiro empunhado, inspirando bem fundo -, consegui apanhar dois peixes em simultâneo.
Vi as águias pesqueiras, pela primeira vez, quando estas estavam já em liberdade, em vôos, poleiros e alimentadores. Que criaturas tão formosas. Nós estávamos sempre à distância, mas atentos – queríamos saber o paradeiro delas e comprovar que estavam bem. Assim, fazia parte da rotina diária não só alimentá-las, mas também localizá-las, contá-las, observá-las (e admirá-las).
O mui fiel batel, de nome Gugas, era o nosso transporte pelo Alqueva. Para além do essencial apoio nas rotinas diárias, levou-nos a paragens mais distantes, em viagens pela fascinante paisagem. Foi numa destas viagens que avistámos uma águia pesqueira, que não era “nossa”! O entusiasmo e nervosismo que senti na altura despoletariam facilmente em mim exclamações, gestos e saltos – mas tiveram que ser atenuados pela necessidade de fazer silêncio e maximizar a discrição, para tentar não a perturbar enquanto a observávamos.
Mas este voluntariado foi bem mais do que águias pesqueiras, e portanto há que mencionar outras partes inesquecíveis…
Os refrescantes – abençoados! – mergulhos no Alqueva;
O nascer do sol, tão claro e vivo;
O pôr do sol, que pintava o céu em mornas composições que aqueciam a alma;
O profundo céu noturno, com o seu pontilhado perfeito, riscado de quando em vez pelas estrelas em queda;
E a equipa do projeto, pessoas incríveis. Dedicadas, interessantes, merecem o meu respeito e admiração. Pessoas que, para grande apreço e gratidão minha, me receberam muito bem no seu “lar”, que passou a ser também o meu.
Voltando a pensar no primeiro dia de voluntariado, lembro-me bem que começou com uma típica mistura de insegurança e entusiasmo face a uma nova aventura, e que depressa se alterou para um estado de alegre satisfação. Assim se manteve durante as duas semanas, terminando marcado por uma positiva tristeza, associada ao fim daquilo que é bom.
Este ano voltei ao Alqueva, para mais uma temporada como voluntária. Tal como eu regressei, desejo que as águias pesqueiras, no futuro, regressem também.

Mariana Santos