Crónica da Praia do Guincho

Diogo Fernandez Ferreira, Arte da Caça da Altaneria. 1616, pp. 111-112.

Diogo Fernandez Ferreira, Arte da Caça da Altaneria. 1616, pp. 111-112.

Transcrição: Dos Guinchos. São os guinchos aves marítimas, do corpo dos nossos milhanos, de cor cinzentos. Criam em rochas e em árvores. Seu mantimento são peixes do mar, eles os tomam de mergulho e os levam nas unhas, as quais têm tão grandes como os gaviões. São aves prudentes; o dia que vêem bom e o mar quieto metem-no em casa [o mantimento] trazendo peixes em um dia que bastaria para toda a semana; o que tem o ninho destas aves, enquanto elas têm filhos, tem de comer peixe para alguns dias em abastança; de onde nasceu este rifão das mulheres: – Fulano, não tenhais dó dela, que tem em tal pessoa um ninho de guincho!

Como se vê, Guincho é o nome tradicional português de Pandion haliaetus (atualmente conhecido como “águia-pesqueira”), talvez desde sempre. Os guinchos terão sido comuns em Portugal até ao início do Séc. XX, pelo menos no sul do país, onde nos legaram muitos topónimos [nomes dos lugares] costeiros. Alguns são topónimos simples (Guincho), outros compostos, como os diversos Ninho de Guincho existentes, ou o Penedo do Guincho (Santa Cruz, Torres Vedras), o Palheirão do Guincho (litoral de Odemira), o Leixão do Guincho (Carvoeiro, Lagoa), ou a Entrada do Ninho do Guincho (Cabo Sardão, Odemira), entre vários outros.

Além, claro está, do mais famoso de todos – a Praia do Guincho. A origem do nome desta popular praia tem também certamente origem na nidificação da espécie no litoral do Cabo da Roca, provavelmente nalgum dos pináculos ilhados do Guincho Velho, próximo da povoação de Figueira do Guincho. Embora hoje em dia este conhecimento se tenha perdido, na Toponímia do Concelho de Cascais (Diogo Correia, 1964, Ed. Câmara Municipal de Cascais) diz-se em
relação ao topónimo Guincho (p. 39), Nome proveniente da ave chamada guincho, também conhecida por águia-pesqueira, nada tendo, portanto com “aparelho para levantar pesos”.

A caída em desuso do nome tradicional da espécie deve-se inicialmente a que, em 1878, um professor da Universidade de Coimbra, comete o erro lamentável de, ao catalogar as aves do museu da Universidade, chamar Guincho-da-tainha à águia-cobreira (Circaetus gallicus), espécie que nunca consome peixes e, em contraponto, águia-pesqueira (por influência do castelhano “águila pescadora”?) ao verdadeiro guincho, o que viria a ser perpetuado pelos naturalistas até pelo menos à década de 1950, com a honrosa excepção de Reis Júnior que tenta desfazer o equívoco em 1934, infelizmente sem sucesso. O nome continuou a ser acriticamente adotado até aos dias de hoje e uma das razões deve-se aos ornitólogos chamarem guincho a uma pequena gaivota (Larus ridibundus), nome possivelmente com origem em corruptela do seu antigo nome de Garrincho.

No entanto, Guincho é atualmente o nome de Pandion haliaetus em Cabo Verde, onde existem inúmeros topónimos alusivos à espécie, e é igualmente o nome utilizado nas Canárias (em contraste com a Espanha peninsular, onde a espécie é chamada de águila pescadora). Os filólogos canários consideram o termo, claramente, um portuguesismo e, aqui também, o nome aparece abundantemente na toponímia. Na origem, certamente a forte emigração portuguesa para as Canárias nos Séculos XVI-XVII, com predomínio inicial de algarvios e madeirenses, estes como mestres do cultivo e indústria açucareira.
Um importante fluxo migratório das Canárias para as Caraíbas nos Séculos XVI-XVIII, igualmente associado à produção açucareira, levou consigo o nome do Guincho, o qual se mantém ainda hoje como a denominação mais corrente da espécie em Cuba, na República Dominicana e em Porto Rico. É também utilizada no México, além de estar referenciada a sua utilização pela comunidade Isleña da Louisiana (EUA), igualmente descendente de imigrantes canários. E em Cuba também existem topónimos como Bahía del Guincho, Punta Guincho, Cayo Guincho, assim como fronteira das Bahamas com Cuba (Guincho Cay).

Em resumo, o portuguesíssimo Guincho perdeu-se quase por completo na sua pátria geográfica, mas mantêm-se vivo e funcional nas línguas e na geografia de um e outro lado do Atlântico, desde a Macaronésia às Caraíbas. A reintrodução e recuperação de Pandion haliaetus no nosso país, seria a oportunidade ideal para recuperar o seu nome português, tão expandido pelo mundo. Mas se tal já não for possível, pelo menos que se saiba por que se chama assim a tão famosa Praia do Guincho!

 

Luís Palma
Coordenador científico do Projeto de Reintrodução da “Águia-pesqueira” em Portugal.