Esta nova rubrica nasce com a intenção de reunir diferentes perspectivas sobre o trabalho de conservação da natureza, com especial destaque para o percurso da águia-pesqueira em Portugal. Ao longo destas conversas, vamos conhecer as ideias, desafios e experiências de quem acompanha de perto estes projetos, ajudando a construir uma visão mais completa do que acontece no terreno. O objetivo é simples: partilhar conhecimento de forma acessível, aproximar a comunidade e dar voz a quem trabalha diariamente para proteger as nossas aves.
Sem uma ordem específica na sequência das entrevistas, começamos esta rubrica com a nossa primeira convidada: a Andreia Dias, que acompanhou o projeto de reintrodução da águia-pesqueira desde o primeiro dia e teve um papel fundamental em várias das etapas que lhe deram forma.
Podes fazer uma breve apresentação sobre quem és e o que fazes na vida?
Sou bióloga, licenciada pela Universidade de Aveiro, com Mestrado em Gestão e Conservação da Natureza pela Universidade do Algarve e doutoramento em Biodiversidade pela Universidade de Barcelona.
Sempre me dediquei à Natureza com experiência em áreas diversas como cinegética, estudos de impacte ambiental e projetos de conservação nacionais e internacionais. Atualmente trabalho em Espanha, colaborando em projetos apoiados pelo Ministério do Ambiente equipando aves com emissores GPS, especialmente ameaçadas, para estudar os seus movimentos e implementar estratégias de proteção das populações. Participo em investigações, nomeadamente na identificação de aves através dos seus ossos.
Qual o teu envolvimento no projeto das águias pesqueiras?
Antes da implementação do projeto, participei no estudo para escolher a área mais adequada e fui diretora executiva do projeto de reintrodução em Portugal.
Qual a tua opinião acerca dos resultados do projeto?
A primeira nidificação bem-sucedida aconteceu em 2015, exatamente o mesmo que sucedeu nos projetos de reintrodução espanhol e britânico. As libertações foram iniciadas em 2011 e em 2015 surgiu a primeira nidificação com êxito reprodutor. São projetos muito morosos que dependem muito da quantidade de indivíduos que são libertados.
Esperávamos que 10 anos após a 1º libertação, estivesse instalado um núcleo fundador com 7-14 casais nidificantes. Hoje temos quatro casais em Portugal. Não é o número ideal, mas representa um passo importante para garantir o regresso da espécie ao nosso país.
O que é necessário fazer para atingir uma população reprodutora estável?
Seria importante reforçar a população com mais indivíduos, mas também podemos ajudar criando plataformas artificiais de nidificação, colocando emissores GPS para acompanhamento das aves e corrigir linhas elétricas que ainda são causadoras de acidentes e que, cada vez mais, são utilizadas como substrato de nidificação. A proteção de casais já instalados é também necessária.
Tens alguma memória marcante ou história curiosa do tempo em que estiveste no campo com as águias-pesqueiras?
Muitas!! Foram 11 anos de trabalho com águias-pesqueiras no projeto de reintrodução em Portugal e na Suíça. Não esqueço o primeiro indivíduo recolhido na Finlândia, órfão de pai, com anilha P00. Destemido, foi o primeiro a dispersar… Depois de alguns dias afastado, voltou à zona de libertação… causou-nos muitas dores de cabeça, pois obrigou a equipa a ficar no Alqueva até final de setembro. Enquanto nós já queríamos “migrar” para casa, ele ainda não tinha partido!
O que mais te motiva a continuar ligada a este projeto, mesmo depois de tantos anos?
Quanto mais conheço a espécie, mais sinto a responsabilidade de contribuir para a sua recuperação. E como é uma espécie “guarda-chuva”, ao protegê-la, também ajudamos muitas outras aves e ecossistemas, cumprindo com o meu propósito de bióloga. É uma ave impressionante…
Qual foi o maior desafio durante o período da reintrodução? E como o superaram?
Lembro as primeiras aves vindas da Finlândia e da Suécia, e chegadas ao Alqueva em pleno calor de julho, depois de horas de viagem. Nos primeiros dias não se mexiam nem comiam. Exigiram vigilância constante durante 3 dias com momentos de constante tensão. Felizmente tudo correu bem.
Se pudesses voltar atrás, farias algo diferente na forma como o projeto foi implementado?
Equiparia algumas aves com emissores GPS desde o início, para obter mais informação sobre os seus movimentos e prevenir ameaças.
Qual é o papel do público neste esforço de conservação? O que cada um de nós pode fazer para ajudar?
O público é essencial. Sem a aceitação das comunidades locais, a conservação não resulta. Cada pessoa pode ajudar participando em ciência cidadã, registando observações; evitando perturbar os locais onde as águias-pesqueiras vivem e se alimentam; denunciando atividades ilegais como destruição de ninhos ou poluição; apoiando associações de conservação e divulgando informação.
Pequenos gestos fazem uma grande diferença quando se juntam ao esforço técnico e científico.
Como imaginas o futuro da águia-pesqueira em Portugal nos próximos 10 anos?
O crescimento da população nidificante é lento, mas Portugal continua a ser muito importante para esta espécie: 48% das águias-pesqueiras que passam o inverno na Península Ibérica estão no nosso território. Espero ver mais casais a instalar-se junto dos já existentes, formando uma população robusta e bem consolidada.







